5 de jul de 2014

APOCRIFAGIA.

E que tudo se exploda
Em pecados líricos
Em dissabores de sins

Mal ditos

Teu santo nome num verso
Em vão
Pulsante num peito ateu

Quem ama aos pobres
Poetas
Empresta a-deus.

13 comentários:

  1. Aqui vive um mundo em ebulição e inspiração.

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  2. Há sempre palavras ao vento, versos sem força, orações em vão.
    É tudo o que há, ultimamente. Um caos.

    Belo e intenso! Verdadeiro.

    Beijo!

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  3. Que lindo. É ateu quem não crê no amor?
    Você escreve muito bem....

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  4. Versos adoráveis esses... Gostei bastante desse contraste das palavras relacionadas à poesia com as relacionadas à religião.

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  5. Que digna a tua literatura.
    Gosto bastante.

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  6. Mesmo que seja (ou pareça) clichê, devo dizer que adorei o teu blog. Esse poema, especificamente, ficou intrigante por relacionar a religião com a inspiração da tua poesia. Parabéns.

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  7. e que o tudo exploda dentro
    pecados líricos – benditos
    dissabores que nos saboreiam

    mal ditos abençoados

    que nunca me nega
    um verso santo: teu nome
    milagre de um peito morto
    ateu na santidade – atado no amor sacro

    que me salva das misérias interiores.

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  8. Me pergunto se há literatura sem per-versão, sem essa alteração dos estados e essências que consideramos puros, e gerar todo tipo de atrito e caos e observar o que daí deriva como um deus caprichoso... talvez toda maldade carregue um ato divino de um deus furioso (não um deus civilizado) com seus proprios descaminhos e equivocos porque talvez não seja ainda omnisciente (um deus infante?), afeito aos caprichos do tempo e do espaço tambem em seu princípio (com fisica concentrada anterior aos segundos)... então meio contrariado segue nomeando os espaços que considera em branco, desdenha as cavernas de Platão porque seus pensamentos e emoções são absolutos - mas no seu íntimo, cultiva e cativa os pecados porque não suporta a vida sem o conforto que a escuridão oferece para a incompreensão e cansaço de ver tudo que está exaustivamente iluminado... o pecado se confunde com a pureza das almas porque ambos estão quase sempre reclusos - ambos, ávidos por consumir preces que ninguem ouve - ambos - vibram o corpo e, de longe e de perto, parecem a mesma paixão.

    um abraço

    Goethe - Faust


    Mephistopholes [to Faust]:"I am the Spirit that Denies!
    And justly so: for all things, from the Void
    Called forth, deserve to be destroyed:
    'Twere better, then, were nothing created.
    Thus, all which you as Sin have rated,—
    Destruction,—aught with Evil blent,—
    That is my proper element."

    Raduan Nassar - Lavoura Arcaica [excertos]


    Os olhos no teto, a nudez dentro do quarto; róseo, azul ou violáceo, o quarto é inviolável; o quarto é individual, é um mundo, quarto catedral, onde, nos intervalos da angústia, se colhe, de um áspero caule, na palma da mão, a rosa branca do desespero, pois entre os objetos que o quarto consagra estão primeiro os objetos do corpo [...] Ana, sempre mais ousada, mais petulante, inventou um novo lance alongando o braço, e, com graça calculada (que demônio mais versátil!), roubou de um circundante a sua taça, logo derramando sobre os ombros nus o vinho lento, obrigando a flauta a um apressado retrocesso lânguido, provocando a ovação dos que a cercavam, era a voz surda de um coro ao mesmo tempo sacro e profano que subia, era a comunhão confusa de alegria, anseios e tormentos, ela sabia surpreender, essa minha irmã, sabia molhar a sua dança, embeber a sua carne, castigar a minha língua no mel litúrgico daquele favo, me atirando sem piedade numa insólita embriaguez, me pondo convulso e antecedente, me fazendo ver com espantosa lucidez as minhas pernas de um lado, os braços de outro, todas as minhas partes amputadas se procurando na antiga unidade do meu corpo.

    Shakespeare - Hamlet (before ophelia enter) [excerpt]

    To be, or not to be- that is the question:
    Whether 'tis nobler in the mind to suffer
    The slings and arrows of outrageous fortune
    Or to take arms against a sea of troubles,
    And by opposing end them. To die- to sleep-
    No more; and by a sleep to say we end
    The heartache, and the thousand natural shocks
    That flesh is heir to. 'Tis a consummation
    Devoutly to be wish'd. To die- to sleep.
    To sleep- perchance to dream[...]
    Thus conscience does make cowards of us all,
    And thus the native hue of resolution
    Is sicklied o'er with the pale cast of thought,
    And enterprises of great pith and moment
    With this regard their currents turn awry
    And lose the name of action.- Soft you now!
    The fair Ophelia!- Nymph, in thy orisons
    Be all my sins remembered.

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  9. Nossa, Déborah! E se eu te contar que também venho aqui escondido? *-*
    Eu amo tudo por aqui!

    meu blog ♥

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  10. "Teu santo nome em um verso, em vão"

    Perfeito.

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À você, um sorriso capaz de derreter o mais frio dos corações.